sábado, 18 de maio de 2013

Foi notícia em Fevereiro de 1938...

Visita dos «Flechas» de Badajoz a Lisboa

Colecção particular














Colecção particular






















In: Ilustração 292 de 16 de Fevereiro de 1938 (colecção particular)
       marr

domingo, 5 de maio de 2013

Fonte Monumental de Lisboa

FONTE LUMINOSA
Postal ilustrado (Colecção particular)
Com a construção da Fonte Monumental, vulgarmente conhecida por «Fonte Luminosa», não só se pretende comemorar a chegada à Capital das águas do canal do Tejo, mas traduzir também como um grande agradecimento espiritualizado das populações beneficiadas durante o seu percurso através das extensas planícies fertilizadas.
Postal ilustrado (Colecção particular










Maqueta da fonte monumental (Colecção particular)

O arquitecto Carlos Rebelo de Andrade foi o autor do projecto, iniciado em 1939, que se situa no topo leste da Alameda de D. Afonso Henrique em Lisboa, tendo sido construída pela Câmara Municipal.


(Colecção particular)
(Colecção particular)
A fonte é constituída fundamentalmente por uma grande parede de cantaria simbolizando a grande represa do caudal do Tejo, da qual, por rasgamento aberto na sua espessura, brotam jorros de água em três cascatas que um grande lago recolhe. A parede reveste o declive da esplanada - miradouro aberto  14,5 metros acima do plano onde se estende a alameda e é flanqueado por dois corpos salientes onde se abrem os portões que lhes dão ingresso, encimados por dois painéis de cerâmica em baixo relevo. Do seio das águas do lago surgem motivos escultóricos de excepcional beleza decorativa enriquecendo o conjunto monumental; um grupo alegórico de bronze representa o Tejo a cavalgar um centauro marinho que é conduzido por golfinhos assistidos pelas ninfas - as tágides de Camões. 

Os grupos alegóricos são da autoria dos artistas Jorge Barradas, Maximiano Alves e Diogo de Macedo.
Postal ilustrado (Colecção particular)
As obras de construção da fonte iniciaram-se em 1939, tendo sofrido diversos atrasos, principalmente na entrega dos grupos escultóricos por parte dos respectivos artistas. Tendo finalmente sido inaugurada com grande brilhantismo e admiração pela sua beleza e pelos seus jogos de água e luzes, no dia 28 de Maio de 1948.
Postal ilustrado (Colecção particular)















Coorden. e ilustrações: marr

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Angola

SÁ DA BANDEIRA

Sá da Bandeira no século XIX. Gravura da época. (Colecção particular)
Nas últimas décadas do século XIX, verifica-se que o esforço colonizador dos portugueses estava seriamente ameaçado em Angola, e que uma série de combinações internacionais preparava "ambiente" para que o território português ultramarino fosse desagregado.
Sá da Bandeira em 1888. Gravura da época (Colecção particular)
Era necessário efectuar a ocupação europeia até às mais recônditas fronteiras angolanas. Por outro lado, a presença dos bóeres no sul de Angola (holandeses emigrados da África do Sul, depois de vencidos nas lutas anglo-boers que ali se travaram) não era de modo a estabelecer, naquelas paragens, o sentido nacional que era necessário que o Ultramar português tivesse.
Casa do Director de Distrito, c.1890 . Gravura da época (Colecção particular)










Urgia, portanto que a penetração europeia que se iria efectuar fosse feita por portugueses. A primeira leva de emigrantes madeirenses contratados pelo governo português, pelo espaço de cinco anos , partiu a bordo da canhoneira «Índia» no ano de 1885.
Vista aérea de Sá da Bandeira, década de 1950.(Colecção particular)











Esta emigração em larga escala para aquelas paragens já não era inédita. Havia casos de famílias algarvias, do ramo piscatório, que já se tinham fixado em Moçâmedes e em Porto Alexandre e ali exerciam a sua actividade.. Mas pela própria razão da sua "arte" não se afastaram do litoral.
Sá da Bandeira. Escola Agro-Pecuária do Tchi
(Colecção particular)
Com estes emigrantes madeirenses a situação era diferente. Eles eram lavradores e o fértil planalto de Huíla esperava por eles. Do seu contrato tinham recebido uma caixa com ferramentas, uma pá e trinta patacas. E apoiados nisto e no esforço hercúleo dos seus braços lançaram-se na grande aventura da sua vida.

Sá da Bandeira. Colégio Padre Frassinetti











É de epopeia essa vida, desde o seu desembarque em Moçâmedes  a travessia do deserto, o internamento pela selva, a subida da Serra da Chela até à chegada ao Planalto, onde construíram os primeiros barracões, dando início, com eles, à povoação que viria a transformar-se na cidade de Sá da Bandeira, hoje Lubango.
Sá da Bandeira. Casino da Senhora do Monte.
(Colecção particular)

Nessa travessia memorável  os 1 300 novatos dos sertões africanos tudo sofreram, desde o temor pelo desconhecido à luta contra os elementos da natureza, o cansaço, a doença e a morte de muitos.
Sá da Bandeira. Liceu Diogo Cão. Postal ilustrado (Colecção particular)

Sá da Bandeira. Piscina do parque de N. S. do Monte.
Postal ilustrado (Colecção particular)





















Sá da Bandeira. Capela de N. S. do Monte
Postal ilustrado (Colecção particular)

Estes velhos colonos, que se conservaram iguais a si próprios, ao que eram os seus pais e os seus avós no torrão madeirense, talvez não tenham tido a consciência do que representou para o seu País a valorosa acção das suas vidas obscuras. Eles escreveram com o seu trabalho, com o seu sangue, com o seu suor, com as suas desilusões e alegrias, com as suas lutas e os seus sonhos uma das mais belas páginas da história de Angola, tendo demarcado definitivamente com o seu esforço e a sua presença as fronteiras sul daquele território.


Sá da Bandeira. Grande Hotel Huíla. Postal ilustrado (Colecção particular)
Coordenação do texto e ilustrações:marr


domingo, 24 de março de 2013

Canícula em Lisboa

AS BARCAS DE BANHOS

Os banhos de mar tomavam-se apenas como tratamento prescrito pelos médicos e era na Fundição ou na Praia de Santos que de manhã se ia mergulhar na lama ou na água suja de toda a imundície que naqueles locais se despejava.

Mais tarde, apareceram as Barcas de Banhos com os pomposos nomes de "Deusa dos Mares", "Flor da Praia", etc.. Como essas barcas estavam amarradas à terra, ou ancoradas muito próximo, as águas eram iguais e ainda por cima o banho tomava-se dentro de verdadeiras gaiolas; mas, por muito tempo, foi moda "ir às barcas" que além do mais serviam para o cultivo do namoro...

Mal se entrava no Verão encontravam-se atracadas no rio as célebres "Barcas de Banhos", para ser mais preciso, no cais de Santos, na margem do Tejo, pouco mais ou menos onde hoje fica a estação da linha de Cascais. Assim que a canícula se tornava insuportável o alfacinha ocorria às Barcas; efectivamente os lisboetas não eram muito dados a idas à praia, porque os transportes eram caros e escassos e quanto muito ia-se até Belém ou Pedrouços. Equivaleriam hoje as "Barcas de Banhos" às nossas actuais praias.


Barca fundeada perto do cais
Colecção particular

Três delas, encontravam-se atracadas perto uma das outras, sendo a primeira, a contar do Cais de Sodré para o Terreiro do Paço, a «Lisbonense» pintada de negro com vivos brancos; seguindo-se a «Vinte e Quatro de Julho» pintada de azul e a terceira, a «Feliz Destino» toda de verde. A primeira era frequentada por gente do povo, a outra pelos remediados e a terceira pelos de mais posses.

Mas, a meio do rio, mesmo em frente ao Terreiro do Paço, fundeava mais uma que se chamava «Deusa dos Mares» e que se destinava aos mais abastados, onde inclusivamente se ensinava natação. Era esta uma barca ou casco muito grande e com uma história curiosa, que contarei um pouco mais abaixo; acrescia ao preço do banho o transporte em catraio a partir do Cais das Colunas. Acontecia que os banhos ali tomados tinham a vantagem
de a água ter maior corrente, ser mais transparente e menos vasa, o que não sucedia com os utentes das outras que estavam atracadas na margem ou muito perto dela.

Sensivelmente entre o ano de 1872 e o de 1874 as condições da água do rio devem-se ter alterado, assim como as instalações da barca se devem ter deteriorado, talvez por falta de manutenção, assunto esse que foi remediado dando origem a um curioso anúncio publicado no Diário Ilustrado de Agosto de 1874, que diz o seguinte:

BARCA    DE    BANHOS
DEUSA DOS MARES
" Esta barca acha-se fundeada defronte do Arsenal da Marinha, no local, onde a corrente da água é puríssima, mesmo na baixa-mar, por estar convenientemente afastada da canalização dos despejos da cidade. Depois dos melhoramentos que a empresa, como costuma, realizou este ano, foi a Barca vistoriada pelos peritos do Arsenal da Marinha, em virtude do que o Ilm.º e Exm.º Sr. Capitão do Porto deu o seguinte despacho ao requerimentos que nessa ocasião se fez. 

Tendo-se passado vistoria e sendo esta de parecer que a barca se acha em boas condições, para o serviço a que é destinada, concedo a licença pedida para vir para a sua amarração. - Departamento do Centro, 26 de Julho de 1874.- Kol.

A publicação deste despacho garantiu a solidez das obras realizadas
e desvanece quaisquer dúvidas, que por ventura houvessem a tal respeito. A boa ordem, asseio e comodidade são rigorosamente observados, como convêm em estabelecimento de tal ordem.

PREÇOS: Primeiro banho de proa, $120 réis; Banho de proa, $100; Banho de chuva, $160; Banho reservado, $200; Banho grande, $120; Banho de ré, $080; Banho geral, $060.

Observação: O banho geral para homens corre em volta da popa da barca e mede 102 pés, sendo por tal motivo apropriado para o exercício de natação, sem que haja perigo. A bordo alugam-se roupas, assim como se ministram banhos mornos. No Terreiro do Paço, encontram as pessoas que quiserem frequentar a barca, botes sólidos e expressamente construídos para o serviço de conduzir a bordo."

As barcas menores tinham a forma de uma pequena vivenda de madeira, construídas sobre enormes faluas, para as quais se entrava por meio de um pontão que vinha da embarcação para o cais, onde se vendiam os bilhetes e alugavam os lençóis, os fatos de banho e as bóias, porque quem sabia nadar tinha autorização para se banhar, fora das gaiolas reservadas aos banhistas, em volta da construção.

Barca menor ligada por um pontão ao cais
Colecção particular
O preço do banho variava conforme os lados de bombordo ou estibordo, ou segundo os quartos com poços especiais, onde podia cada qual despir-se; à ré, encontrava-se o "banho geral", onde os utentes se agarravam a uma corda, que um marítimo experiente vigiava, banho este que se pagava com um pataco.

A BARCA "DEUSA DOS MARES"
Tem esta barca uma história curiosa e digna de menção. Pertenceu outrora à praça de Lisboa e fazia a carreira da Índia debaixo do nome «Maia Cardoso». Mais tarde, foi armada em vaso de guerra, e por esse motivo mudou de feição e de nome. Passou a chamar-se «Trovoada» e assistiu impassível, no alto mar, à desencadeada luta dos elementos, pois era feita de teca e da melhor construção, prestando serviços à armada e ganhando mais um título à estima pública.

Seguiram-se os anos e o vaso de guerra voltou ao Tejo. Cansado já da glória, e depois de se ter tornado útil ao comércio e à marinha, desarmou-se dos apetrechos bélicos, e ataviou-se elegantemente como "Barca de Banhos", e hoje mais do que nunca se acha bem conceituada, porque tem ido de melhoramento em melhoramento, a ponto da barca conter agora 31 banhos a estibordo e bombordo, sendo estes divididos em banhos diferentes, como por exemplo: 4 banhos de chuva, 2 reservados e 3 grandes, havendo a facilidade de reunir 3 banhos num só, quando se dá o caso da família ser numerosa. Como se todos estes atractivos não fossem bastantes, tem mais 2 magníficos banhos gerais com o comprimento de 102 pés ingleses, e a conveniência de servir um dos banhos de escola de natação, descobrindo-se metade, e tornando-se por tanto muito mais claro do que os outros. Davam-se, também  banhos quentes em tinas e igualmente mornos de chuva.

Colecção particular
O que sobretudo demonstrava claramente a excelência desta barca era o estar colocada na corrente da água e os banhos de proa serem "tão fortes e cristalinos como o das praias". A bordo, ainda havia um "bufete", onde os banhistas encontravam sempre um bom serviço e preços acessíveis.

Havia sempre à disposição dos frequentadores da "Deusa dos Mares" 3 botes no cais do Terreiro do Paço e 2 no Cais do Sodré. Em remate direi que a barca media da proa à popa 156 pés ingleses e 61 de boca, sendo por conseguinte a maior embarcação, ao seu tempo, surta no Tejo.


COMO ERAM AS BARCAS DE BANHOS?

Nada como o Eng.º Vieira da Silva, que frequentou estas barcas em 1875, na companhia de sua mãe, para nos descrever que:

"Tratavam-se de velhos cascos de barcos que se adaptavam a essa nova aplicação. Para esse efeito, ao longo de uma coxia longitudinal de circulação no convés, adaptava-se, a cada um dos costados, de proa à popa, uma estrutura de madeira semelhante a uma longa caixa, com tecto, dividida interiormente por tábuas transversais em celas ou compartimentos, com uma porta para o convés na parede anterior. Constituíam essas celas as barracas, para os banhistas se vestirem e despirem.

Os compartimentos alongavam-se para fora do convés do barco, e as suas paredes laterais e as posteriores, que desciam vedadas até ao nível da água, prolongavam-se para baixo deste nível com a forma de gaiolas, com três das suas paredes feitas de grades de sarrafos, e com o fundo de tábuas de soalho, que ficava cerca de 1,30m abaixo do nível normal da água nos compartimentos.

Deste modo, cada barraca podia considerar-se formada por dois compartimentos sobrepostos: um aéreo, com o pavimento ou estrado a nível do convés, no qual os banhistas se preparavam para o banho; outro aquático ou submerso, ou poço onde se tomava banho, limitado pelo gradeamento de sarrafos e pelo costado do barco.

Como os barcas estavam fundeadas, a água corrente do rio atravessavam os diversos compartimentos, pelos intervalos das grades de madeira o que proporcionava aos banhistas água corrente, com alguns encontros inesperados com peixes, alforrecas e uma ou outra imundície que vagueava pelo rio"...

Coorden. dos diversos textos e imagens: marr

sábado, 9 de março de 2013

Funerais Reais em 1908

FUNERAIS DE EL-REI D. CARLOS
 E DO 
PRÍNCIPE REAL D. LUÍS FILIPE

Na capela do Paço das Necessidades


Arcebispo de Évora
Conde de Jimenez Y Molina, Conde de S. Luiz
e o Marquês de Guell











Embaixador da Bulgária e oficiais alemães do Regimento de que
El-Rei era Coronel Honorário

Oficiais da embaixada espanhola, que acompanhavam o Príncipe
Fernando da Baviera, representante do Rei de Espanha


Um dos coches passando no Aterro
O cortejo saindo das Necessidades




O cortejo passando no Terreiro do Paço


O coche conduzindo o cadáver do Príncipe













O coche conduzindo o cadáver do Rei














Um dos coches chegando a São Vicente


A missão francesa
Conde de Turim e o Príncipe de
Hohenzollern, primo de El-Rei D. Carlos








O coche conduzindo o cadáver do Soberano, chegando a São Vicente
Ilustrações e legendas: marr

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Culto da Padroeira de Portugal

Entrevista com o Dr. Santos Farinha

O Dr. Santos Farinha é de uma inteligência pouco vulgar e todos que se interessam por estas coisas, conhecem-no bem e têm já ouvido a sua palavra simples e bondosa. Os seus inúmeros conhecimentos sagrados, dão-lhe certa autoridade, sendo constante o imenso número de consultas e visitas que os seus admiradores amiúde lhe fazem.

- Alguns dados sobre "o culto da Imaculada"? Está bem. Vamos ver
  se me recordo.

- Parece que a devoção à Sr.ª da Conceição, em Lisboa começou  
  com os cruzados do Ocidente que auxiliaram os soldados de
 Afonso Henriques na tomada desta cidade, conduzindo para a
 parte oriental os feridos, colocando-os em barracas, enfermarias,
feitas sobre a protecção da Virgem, sob o título de Sr.ª da Conceição da Enfermaria, que mais tarde passou para a Igreja de São Vicente onde ainda hoje se conserva como consta duma lápide onde estavam esculpidas estas palavras: Hoc Templum oedificavit Rex Portugalliae Alphonsus I in honorem Beatae Mariae Virginis et Sancti Vicenti Martyris, XI calena Decembris sob era MLXXXV.

Quando começou a intensificar-se em Portugal foi no tempo da Rainha Santa Isabel, mandando construir um altar em sua honra na Igreja do Convento da Trindade.
O Dr. Santos Farinha no seu gabinete de trabalho
Depois foram os franciscanos quem com mais insistência espalharam em Portugal o culto da Sr.ª da Conceição, principalmente nos seus conventos. Contudo o clérigo secular não deixou de secundar todo esse movimento em favor do culto da Imaculada Conceição. É assim que, na Sé Catedral do Porto, de tempos mui remotos, se venerava a Conceição de Maria  com uma capela dedicada à Sr.ª da Conceição. A mesma evocação tinha a capela particular dos Bispos da mesma diocese  Na Igreja de São Martinho de Cedofeita, que é porventura a mais antiga da cidade existiu sempre uma capela em honra da Sr.ª da Conceição. No tempo da 2.ª Dinastia, Avis, a maior parte das casas fidalgas timbraram em ter nas suas capelas a imagem de Nossa Senhora da Conceição. É sabido que Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque jamais deixaram de trazer consigo a Sr.ª da Conceição. Se bem atentarmos  na significação mística da Sr.ª do Vencimento do Monte do Carmo, em honra da qual Nuno Álvares erigiu o seu mosteiro, todos esses cultos e homenagens prestados por esse grande português à Virgem, iam objectivar-se no privilégio da Sr.ª da Conceição Imaculada. Pedro Álvares Cabral, tinha a Sr.ª da Conceição como sua padroeira. Os Srs. de Pancas, Manueis de Vilhena, tiveram sempre uma especial devoção a Nossa Sr.ª da Conceição, à qual mais tarde, sagraram na sua capela do palácio que erigiram, perto de Arroios. A casa dos Condes de Almada também teve uma grande devoção a Nossa Sr.ª da Conceição cuja imagem, segundo reza a tradição, acompanhou sempre o herói da Alfarrobeira. El-Rei D. João III e sua mulher a rainha D. Catarina, tiveram sempre muita devoção a esta prerrogativa da Virgem, promovendo-lhe solenes obséquios na Capela Real e no paço de Almeirim.

Reconquistada a independência da Pátria em 1640 determinou El-Rei D. João IV aclamar a Sr.ª da Conceição padroeira deste reino e das suas conquistas.

À Universidade de Coimbra foi determinado que a Sr.ª da Conceição fosse a padroeira desse estabelecimento de ensino e que não se conferissem os graus académicos sem o prévio juramento da defesa deste privilégio (1646) e só em 1854, definido dogma da fé, por Pio IX. Quer nesse ano, quer em 1904, a Universidade de Coimbra dirigiu-se à Santa Sé, afirmando a sua devoção, a esse mistério.

No tempo do Rei D. João V muito lustre teve o culto à Sr.ª da Conceição empenhando-se o clero e a nobreza em servir em toda a magnificência este culto. Uma das igrejas que mais a peito tomou a devoção à Sr.ª da Conceição foi a «Igreja dos Anjos» em que se constituiu uma irmandade que foi das mais prosperas e das mais numerosas da cidade de Lisboa, aprovada pelo Santo Padre Inocêncio XII que a enriqueceu com grandes privilégios em 3 de Maio de 1695.

A Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, consagrou o seu templo de Lisboa à Sr.ª da Conceição que, após o terramoto, passou para a igreja conhecida pela designação de Sr.ª da Conceição-Velha.

Da freguesia de Santo Estêvão de Alfama, há notícia de que a irmandade da Sr.ª da Conceição congregava as pessoas mais importantes daquela bairro onde morava parte da velha aristocracia da cidade. Em Carnide fundara-se sobre a invocação da Sr.ª da Conceição, um convento de religiosos que, após o terramoto, foi transferido para a Igreja dos Jesuítas onde está hoje o hospital de Arroios.

As damas da aristocracia portuguesa fundaram na Igreja do Espírito Santo, dos padres da Congregação do Oratório, cita no edifício hoje ocupado pelos Armazéns do Chiado, uma irmandade intitulada «Escravas de Nossa Senhora da Conceição» e sob a presidência das Rainhas de Portugal. Após as vicissitudes que sobreviveram à extinção das Ordens Religiosas, esta aristocrática irmandade, estabeleceu-se na Real Capela das Necessidades onde esteve até 1910 e de então, para cá, celebra a sua festa anual na Igreja da Conceição-Nova.

Nossa Senhora da Conceição
Escultura em madeira do século XVIII. Colecção particular

Em Lisboa, além da paróquia desta designação, existe a Igreja dos «Antigos Agostinianos descalços» consagrada à Sr.ª da Conceição e a hoje desafectada do púlpito, Igreja de São Pedro de Alcântara, que o marquês de Marialva fez erigir em honra da Senhora da Conceição pela vitória alcançada pelas tropas portuguesas contra o exército espanhol na guerra da Independência, onde é sabido que na gloriosa acção das Linhas de Elvas, o herói D. Fernão da Silveira, irmão do conde de Sarzedas, morrera gloriosamente, invocando a Pátria e a Virgem Mãe dos portugueses. 

Raras são as igrejas em Lisboa onde se não festeja a Sr.ª da Conceição e se venera a sua Imagem. Para comemoração do 50.º centenário da definição dogmática da Imaculada Conceição constituiu-se uma associação para erigir um templo-monumental que não foi levado a termo por ter sido essa associação dissolvida e os sues bens apreendidos em 1911.

Os grandes mestres que leram teologia em Coimbra, desde o padre Soarez, os Gouveias, os Teivs, até ao grande polemista católico, falecido este ano, o Dr. Silva Ramos; os grandes oradores, desde o padre António Vieira ao saudoso Arcebispo de Évora; os grandes poetas, desde Camões a João de Deus; os dramaturgos, desde Gil Vicente a Garrett; os grandes pintores desde os Coelhos ao Pedro Alexandrino; os grandes músicos como Marcos Portugal a Casimiro, numa palavra, todo o génio português nas suas diferentes modalidades se rendeu em fervorosa homenagem junto da Senhora da Conceição. E a aristocracia nos seus salões e a massa compacta do povo, acotovelando-se no Sameiro em 1904 e a gente da capital e das aldeias, entregando-se à protecção da Sr.ª da Rocha em 1821, traduzem bem o sentir da alma portuguesa que nas horas das suas glórias triunfais e nos instantes das suas turbulentas desditas, dobra o joelho e evoca a Sr.ª da Conceição.

O Dr. Santos Farinha, mais animado, a voz de pregador e de erudito  acrescenta...

- ...e agora, meu amigo, diga aos seus leitores que em 1922 passa o 1.º Centenário da Sr.ª da Conceição da Rocha - a Sr.ª Aparecida - que o facciosismo do ministro liberal José da Silva Carvalho, debalde quis aniquilar e que o Tomás Ribeiro, mais tarde, desagravou, cantando-a na sua lira e esforçando-se para a erigir em Carnaxide, nas margens do Jamor, um templo condigno. Bom era que todos os portugueses, se congreguem para se organizar no próximo ano, uma grande peregrinação nacional a Carnaxide, a qual seja a afirmação da fé e de patriotismo dum povo que deseja ser completamente independente, grande e livre!

Nota:
         Entrevista concedida pelo Dr. Santos Farinha a João D'Alpains ao «ABC» em 
         Dezembro de 1921

Coordenação e imagens: marr