domingo, 2 de junho de 2013

D. Maria Pia 1847- 1911

(Entrevista com a Marquesa de Unhão)


D. Maria Pia (


D. Maria Pia, nasceu em Turim, na Itália, no dia 16 de Outubro de 1847, era filha do então Príncipe Vítor Manuel de Piemonte, que dois anos depois (1849) foi aclamado Rei de Sardenha,e, em 1867 Rei de Itália, e de sua esposa a Arquiduquesa Maria Adelaide.


Tendo a Princesa Maria Pia ficado órfã de mãe aos sete anos de idade, a sua educação ficou a cargo da Condessa de Vila Marina. Foi pedida, em casamento, pelo Visconde da Carreira como enviado português a Turim, para D. Luís I, quando tinha catorze anos;  o contrato matrimonial foi assinado a 8 de Agosto de 1861.  Efectuou-se o enlace por procuração, em Turim a 27 de Novembro de 1862, tendo embarcado a Princesa no dia 29 na corveta Bartolomeu Dias. Assim que o navio fundeou, frente a Belém, foram logo a bordo o Rei D. Luís, seu pai D. Fernando, o Conselho de Estado, o Ministério, etc. D. Maria Pia permaneceu na corveta até ao dia seguinte, indo então desembarcar no Caís das Colunas. 

No Terreiro do Paço foi construído um sumptuoso pavilhão onde recebeu os cumprimentos de boas-vindas. O casamento foi ratificado na Igreja de São Domingos no dia 6 de Outubro, seguindo-se, na cidade, três dias de festa com embandeiramento nas ruas, luminárias, fogos-de-artifício, paradas militares, recepções no Paço, etc.

Do casamento houve dois filhos: D. Carlos (depois D. Carlos I) e D. Afonso Henriques (Duque do Porto).
D. Maria Pia com o seu filho Príncipe D. Carlos,
depois Rei de Portugal e vítima do atentado no
Terreiro do Paço   (Colecção particular)
D. Maria Pia conservou-se sempre alheia aos acontecimentos políticos durante o reinado de seu marido, D. Luís. Só quando o Marechal Saldanha se revoltou, para derrubar o gabinete do Duque de Loulé (1879) que cercou com a artilharia o palácio da Ajuda, onde a família real residia; o marechal parlamentava então com o Rei, quando, de súbito, apareceu D. Maria Pia que, altiva, lhe declarou: - «Se fosse eu o Rei, mandava-o fuzilar!».

Mais tarde, a 2 de Outubro de 1873, achando-se a banhos em Cascais, e tendo ido passear com os seus filhos ao longo da costa, até um local chamado Mexilhoeiro, correu grande perigo a sua existência. Vendo uma onda arrebatar os Príncipes, a heróica Rainha lançou-se imediatamente ao mar para os salvar, e seria irremediavelmente vítima da sua dedicação maternal, se não viesse em seu auxílio e dos Príncipes o ajudante do faroleiro da Guia, António de Almeida Neves, que conseguiu arrastar para terra a Rainha e os sues filhos.

D. Maria Pia, embora considerada a mais faustosa rainha da Europa, distribuía muitas gratificações e donativos aos que a serviam. Era muito esmoler, por isso, o povo a cognominou de "Anjo da Caridade". Em diversas catástrofes, que assolaram o País, era a primeira a deslocar-se para socorrer, materialmente, os sinistrados. Tal foi o que aconteceu no Inverno de 1876 e por ocasião do incêndio do Teatro Baquet no Porto em 1888, embarcando logo para a cidade Invicta, apesar do temporal que fustigava a costa marítima, a fim de levar socorros às famílias das vítimas e aos pobres dos bairros. Quando da fome do Ceará, no Brasil, também para ali enviou socorros vultuosos. Por isso era muito estimada pelo povo. Se ela, às vezes, passeava com D. Luís, nas ruas de Lisboa, os transeuntes ao reconhece-los aplaudiam e festejavam espontaneamente os soberanos.


D. Maria Pia
(Palácio da Ajuda , 1880)

Visitou diversas vezes a Itália e outros países da Europa. "Era ela a Rainha por excelência - relata-nos Eduardo de Noronha - nas Tulherias, ao lado da formosíssima Imperatriz Eugénia; em Windsor Castle, recebida pela respeitada e poderosa Rainha Vitória, soberana da Grã-Bretanha; festejada no Palácio do Oriente em Madrid, pela impetuosa Isabel II; hospedada, não importa por que grande potentado era ela a Rainha. Sabia-o ser!".

No ano de 1877, foi inaugurado, no Porto,a ponte metálica do caminho de ferro, que recebeu o seu nome. Fundou em 1878, na Tapada da Ajuda, a creche Vítor Manuel. Durante o reinado do seu filho, D. Carlos, D. Maria Pia manteve a sua atitude alheia à política.

Dando-se o regicídio, a sexagenária D. Maria Pia sofreu tão grande abalo que se lhe alteraram as faculdades mentais. Chegava ao ponto de regar as carpetes, onde julgava ver flores salpicadas pelo sangue do seu filho e do seu querido neto.

Ao embarcar na Ericeira e ao abandonar o País onde entrara precisamente quarenta e oito anos antes, como noiva feliz e Rainha adorada, a razão fugazmente desperta-lhe fez compreender o que se passava e recusa-se a embarcar e a deixar Portugal, que amara como sua verdadeira Pátria. O iate Amélia que conduzia a Família Real para o exílio aportou a Gibraltar  e daí partiu D. Maria Pia para Itália, num cruzador italiano que propositadamente a foi buscar.
D. Maria Pia com o seu irmão o rei Humberto de Itália,vítima de
atentado de Monza, no mesmo grupo vêem-se a rainha Marga-
rida, o rei (actual) de Itália Vítor Emanuele, o Príncipe D. Carlos
e o Infante D. Afonso (Colecção particular)

Indo habitar no Castelo de Stupinigi, com a sua irmã Clotilde, que adorava, faleceu esta pouco depois da sua chegada. A saúde abalada de D. Maria Pia não suportou mais este golpe... mais esta morte... e a filha de Vítor Manuel faleceu a 5 de Julho de 1911. O seu cadáver foi transportado para Superga, onde ficou depositado no Panteão da Família Real Italiana.


Na Revista "ABC" de 2 de Fevereiro de 1922, o jornalista João D'Alpains fez uma entrevista à Sr.ª Marquesa de Unhão, a última Dama da Rainha D. Maria Pia, de que passo a transcrever algumas passagens mais significativas:

" No sue pequeno palácio da Rua da Vinha, a Sr.ª Marquesa de Unhão, que foi íntima da casa Real e que foi a última Dama da Rainha Senhora Dona Maria Pia, acede receber-nos, quando seu costume era não falar a jornalistas em coisas do passado, aquele passado que é na sua vida a maior saudade."


D. Maria Pia com o seu neto, o Príncipe D. Luís Filipe,
vítima do atentado no terreiro do Paço (Colecção particular)
" Olhamos distraidamente uma fotografia que está junto de nós. S. M. a Rainha-Mãe e o Príncipe D. Luís Filipe, tendo apenas meses de idade. A expressão daquela criança enche-nos de tristeza. Ele está a sorrir, descuidado, ainda inconsciente, ainda sem pensar... naquela idade os homens deviam-lhe ser diferentes, diferentes daqueles, que, numa trágica tarde o derrubaram a tiro - ele era bom e tinha grande paixão pela sua terra. Noutro quadro, El-Rei D. Carlos, vestindo de caçador. Expressão sem ódio, expressão feliz, julgando bem todas as pessoas que o rodeavam, que privavam com ele.""

-"A revolução apanhou-me em Sintra - revela a Sr.ª Marquesa de Unhão - S. M. a Rainha D. Maria Pia vivia muito adoentada nos últimos tempos; não recebia ninguém, a não ser pessoas que estavam de serviço. Sofria de uma grande tristeza, desde o assassinato do Rei e do Príncipe. Ela adorava o Príncipe. Começou a miná-la uma tristeza enorme, muitas vezes não queria ver ninguém, viviam mais consigo, acompanhava-a sempre a sua nostalgia. Sua Majestade era uma pessoa muito nervosa, irrequieta. Antigamente, não; vivia, sempre alegre, imensamente inteligente, era o desejo maior de todos que a rodeavam. Naquele dia da revolução, quando disseram para fugir, S. M. revoltou-se, que não fugiria, que antes tomaria o caminho de Lisboa. S. M. nunca sentiu medo. Ela sabia que o lugar do Rei era nos lugares de perigo e queria estar mais perto, mais junto dele."

D. Maria Pia com o seu neto, o Príncipe D. Luís
 Filipe, assassinado no Terreiro do paço em 1-2-1908
(Colecção particular)

-"Quando chegámos a Mafra ainda S. M. quis voltar para Lisboa.
Era Lisboa que ela desejava; nós não devíamos ter abandonado Lisboa; quase todos os boatos eram falsos e depois restava-nos o País inteiro. Sá a bordo é que soubemos que não íamos para o Porto! Sempre julgámos que, embarcando em Mafra, seguiríamos para o norte de Portugal! Não fizemos bagagem, S. M. tinha uma mala de mão, coisas mais necessária e eu, outra. Nenhuma das Senhoras Rainhas de Portugal desejava sair; custou-lhe muito a dar esse passo. Muito! A bordo  todos tinham a certeza que aquela retirada era por pouco tempo,  que nos chamariam logo. S. M. a Rainha Maria Pia tinha sempre a impressão que a estavam a chamar - que voltaria em breve. Nunca julgou morrer no seu exílio, longe de Portugal que Ela tanto amou"

-"Vivia cheia de saudades e recordava-se de tudo, pensava em tudo. Mais tarde , pedi um mês de licença, pretendia voltar a Portugal para tratar de questões particulares. Não estando em minha casa, perguntei a S. M. se deveria trazer as malas para Lisboa. S. M. disse-me que sim e depois chamou-me. «É melhor lavá-las, porque assim como nos expulsaram rapidamente podem chamar-nos».


-"Não assistiu, Sr.ª Marquesa, à morte de S. M.?"

-"Não! Estava em Portugal. Tive imenso desgosto. Se tivesse adivinhado..."

A Senhora Marquesa, antes de se retirar tem mais uma frase:

-"S. M. nunca se meteu na política. Foi mau! A Rainha-Mãe tinha perfeita noção de todos os problemas e conhecia as pessoas. Adivinhava se elas valiam ou não, pela expressão do seu rosto..."


Colecção particular
Coordenação de textos e ilustrações: marr

sábado, 18 de maio de 2013

Foi notícia em Fevereiro de 1938...

Visita dos «Flechas» de Badajoz a Lisboa

Colecção particular














Colecção particular






















In: Ilustração 292 de 16 de Fevereiro de 1938 (colecção particular)
       marr

domingo, 5 de maio de 2013

Fonte Monumental de Lisboa

FONTE LUMINOSA
Postal ilustrado (Colecção particular)
Com a construção da Fonte Monumental, vulgarmente conhecida por «Fonte Luminosa», não só se pretende comemorar a chegada à Capital das águas do canal do Tejo, mas traduzir também como um grande agradecimento espiritualizado das populações beneficiadas durante o seu percurso através das extensas planícies fertilizadas.
Postal ilustrado (Colecção particular










Maqueta da fonte monumental (Colecção particular)

O arquitecto Carlos Rebelo de Andrade foi o autor do projecto, iniciado em 1939, que se situa no topo leste da Alameda de D. Afonso Henrique em Lisboa, tendo sido construída pela Câmara Municipal.


(Colecção particular)
(Colecção particular)
A fonte é constituída fundamentalmente por uma grande parede de cantaria simbolizando a grande represa do caudal do Tejo, da qual, por rasgamento aberto na sua espessura, brotam jorros de água em três cascatas que um grande lago recolhe. A parede reveste o declive da esplanada - miradouro aberto  14,5 metros acima do plano onde se estende a alameda e é flanqueado por dois corpos salientes onde se abrem os portões que lhes dão ingresso, encimados por dois painéis de cerâmica em baixo relevo. Do seio das águas do lago surgem motivos escultóricos de excepcional beleza decorativa enriquecendo o conjunto monumental; um grupo alegórico de bronze representa o Tejo a cavalgar um centauro marinho que é conduzido por golfinhos assistidos pelas ninfas - as tágides de Camões. 

Os grupos alegóricos são da autoria dos artistas Jorge Barradas, Maximiano Alves e Diogo de Macedo.
Postal ilustrado (Colecção particular)
As obras de construção da fonte iniciaram-se em 1939, tendo sofrido diversos atrasos, principalmente na entrega dos grupos escultóricos por parte dos respectivos artistas. Tendo finalmente sido inaugurada com grande brilhantismo e admiração pela sua beleza e pelos seus jogos de água e luzes, no dia 28 de Maio de 1948.
Postal ilustrado (Colecção particular)















Coorden. e ilustrações: marr

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Angola

SÁ DA BANDEIRA

Sá da Bandeira no século XIX. Gravura da época. (Colecção particular)
Nas últimas décadas do século XIX, verifica-se que o esforço colonizador dos portugueses estava seriamente ameaçado em Angola, e que uma série de combinações internacionais preparava "ambiente" para que o território português ultramarino fosse desagregado.
Sá da Bandeira em 1888. Gravura da época (Colecção particular)
Era necessário efectuar a ocupação europeia até às mais recônditas fronteiras angolanas. Por outro lado, a presença dos bóeres no sul de Angola (holandeses emigrados da África do Sul, depois de vencidos nas lutas anglo-boers que ali se travaram) não era de modo a estabelecer, naquelas paragens, o sentido nacional que era necessário que o Ultramar português tivesse.
Casa do Director de Distrito, c.1890 . Gravura da época (Colecção particular)










Urgia, portanto que a penetração europeia que se iria efectuar fosse feita por portugueses. A primeira leva de emigrantes madeirenses contratados pelo governo português, pelo espaço de cinco anos , partiu a bordo da canhoneira «Índia» no ano de 1885.
Vista aérea de Sá da Bandeira, década de 1950.(Colecção particular)











Esta emigração em larga escala para aquelas paragens já não era inédita. Havia casos de famílias algarvias, do ramo piscatório, que já se tinham fixado em Moçâmedes e em Porto Alexandre e ali exerciam a sua actividade.. Mas pela própria razão da sua "arte" não se afastaram do litoral.
Sá da Bandeira. Escola Agro-Pecuária do Tchi
(Colecção particular)
Com estes emigrantes madeirenses a situação era diferente. Eles eram lavradores e o fértil planalto de Huíla esperava por eles. Do seu contrato tinham recebido uma caixa com ferramentas, uma pá e trinta patacas. E apoiados nisto e no esforço hercúleo dos seus braços lançaram-se na grande aventura da sua vida.

Sá da Bandeira. Colégio Padre Frassinetti











É de epopeia essa vida, desde o seu desembarque em Moçâmedes  a travessia do deserto, o internamento pela selva, a subida da Serra da Chela até à chegada ao Planalto, onde construíram os primeiros barracões, dando início, com eles, à povoação que viria a transformar-se na cidade de Sá da Bandeira, hoje Lubango.
Sá da Bandeira. Casino da Senhora do Monte.
(Colecção particular)

Nessa travessia memorável  os 1 300 novatos dos sertões africanos tudo sofreram, desde o temor pelo desconhecido à luta contra os elementos da natureza, o cansaço, a doença e a morte de muitos.
Sá da Bandeira. Liceu Diogo Cão. Postal ilustrado (Colecção particular)

Sá da Bandeira. Piscina do parque de N. S. do Monte.
Postal ilustrado (Colecção particular)





















Sá da Bandeira. Capela de N. S. do Monte
Postal ilustrado (Colecção particular)

Estes velhos colonos, que se conservaram iguais a si próprios, ao que eram os seus pais e os seus avós no torrão madeirense, talvez não tenham tido a consciência do que representou para o seu País a valorosa acção das suas vidas obscuras. Eles escreveram com o seu trabalho, com o seu sangue, com o seu suor, com as suas desilusões e alegrias, com as suas lutas e os seus sonhos uma das mais belas páginas da história de Angola, tendo demarcado definitivamente com o seu esforço e a sua presença as fronteiras sul daquele território.


Sá da Bandeira. Grande Hotel Huíla. Postal ilustrado (Colecção particular)
Coordenação do texto e ilustrações:marr


domingo, 24 de março de 2013

Canícula em Lisboa

AS BARCAS DE BANHOS

Os banhos de mar tomavam-se apenas como tratamento prescrito pelos médicos e era na Fundição ou na Praia de Santos que de manhã se ia mergulhar na lama ou na água suja de toda a imundície que naqueles locais se despejava.

Mais tarde, apareceram as Barcas de Banhos com os pomposos nomes de "Deusa dos Mares", "Flor da Praia", etc.. Como essas barcas estavam amarradas à terra, ou ancoradas muito próximo, as águas eram iguais e ainda por cima o banho tomava-se dentro de verdadeiras gaiolas; mas, por muito tempo, foi moda "ir às barcas" que além do mais serviam para o cultivo do namoro...

Mal se entrava no Verão encontravam-se atracadas no rio as célebres "Barcas de Banhos", para ser mais preciso, no cais de Santos, na margem do Tejo, pouco mais ou menos onde hoje fica a estação da linha de Cascais. Assim que a canícula se tornava insuportável o alfacinha ocorria às Barcas; efectivamente os lisboetas não eram muito dados a idas à praia, porque os transportes eram caros e escassos e quanto muito ia-se até Belém ou Pedrouços. Equivaleriam hoje as "Barcas de Banhos" às nossas actuais praias.


Barca fundeada perto do cais
Colecção particular

Três delas, encontravam-se atracadas perto uma das outras, sendo a primeira, a contar do Cais de Sodré para o Terreiro do Paço, a «Lisbonense» pintada de negro com vivos brancos; seguindo-se a «Vinte e Quatro de Julho» pintada de azul e a terceira, a «Feliz Destino» toda de verde. A primeira era frequentada por gente do povo, a outra pelos remediados e a terceira pelos de mais posses.

Mas, a meio do rio, mesmo em frente ao Terreiro do Paço, fundeava mais uma que se chamava «Deusa dos Mares» e que se destinava aos mais abastados, onde inclusivamente se ensinava natação. Era esta uma barca ou casco muito grande e com uma história curiosa, que contarei um pouco mais abaixo; acrescia ao preço do banho o transporte em catraio a partir do Cais das Colunas. Acontecia que os banhos ali tomados tinham a vantagem
de a água ter maior corrente, ser mais transparente e menos vasa, o que não sucedia com os utentes das outras que estavam atracadas na margem ou muito perto dela.

Sensivelmente entre o ano de 1872 e o de 1874 as condições da água do rio devem-se ter alterado, assim como as instalações da barca se devem ter deteriorado, talvez por falta de manutenção, assunto esse que foi remediado dando origem a um curioso anúncio publicado no Diário Ilustrado de Agosto de 1874, que diz o seguinte:

BARCA    DE    BANHOS
DEUSA DOS MARES
" Esta barca acha-se fundeada defronte do Arsenal da Marinha, no local, onde a corrente da água é puríssima, mesmo na baixa-mar, por estar convenientemente afastada da canalização dos despejos da cidade. Depois dos melhoramentos que a empresa, como costuma, realizou este ano, foi a Barca vistoriada pelos peritos do Arsenal da Marinha, em virtude do que o Ilm.º e Exm.º Sr. Capitão do Porto deu o seguinte despacho ao requerimentos que nessa ocasião se fez. 

Tendo-se passado vistoria e sendo esta de parecer que a barca se acha em boas condições, para o serviço a que é destinada, concedo a licença pedida para vir para a sua amarração. - Departamento do Centro, 26 de Julho de 1874.- Kol.

A publicação deste despacho garantiu a solidez das obras realizadas
e desvanece quaisquer dúvidas, que por ventura houvessem a tal respeito. A boa ordem, asseio e comodidade são rigorosamente observados, como convêm em estabelecimento de tal ordem.

PREÇOS: Primeiro banho de proa, $120 réis; Banho de proa, $100; Banho de chuva, $160; Banho reservado, $200; Banho grande, $120; Banho de ré, $080; Banho geral, $060.

Observação: O banho geral para homens corre em volta da popa da barca e mede 102 pés, sendo por tal motivo apropriado para o exercício de natação, sem que haja perigo. A bordo alugam-se roupas, assim como se ministram banhos mornos. No Terreiro do Paço, encontram as pessoas que quiserem frequentar a barca, botes sólidos e expressamente construídos para o serviço de conduzir a bordo."

As barcas menores tinham a forma de uma pequena vivenda de madeira, construídas sobre enormes faluas, para as quais se entrava por meio de um pontão que vinha da embarcação para o cais, onde se vendiam os bilhetes e alugavam os lençóis, os fatos de banho e as bóias, porque quem sabia nadar tinha autorização para se banhar, fora das gaiolas reservadas aos banhistas, em volta da construção.

Barca menor ligada por um pontão ao cais
Colecção particular
O preço do banho variava conforme os lados de bombordo ou estibordo, ou segundo os quartos com poços especiais, onde podia cada qual despir-se; à ré, encontrava-se o "banho geral", onde os utentes se agarravam a uma corda, que um marítimo experiente vigiava, banho este que se pagava com um pataco.

A BARCA "DEUSA DOS MARES"
Tem esta barca uma história curiosa e digna de menção. Pertenceu outrora à praça de Lisboa e fazia a carreira da Índia debaixo do nome «Maia Cardoso». Mais tarde, foi armada em vaso de guerra, e por esse motivo mudou de feição e de nome. Passou a chamar-se «Trovoada» e assistiu impassível, no alto mar, à desencadeada luta dos elementos, pois era feita de teca e da melhor construção, prestando serviços à armada e ganhando mais um título à estima pública.

Seguiram-se os anos e o vaso de guerra voltou ao Tejo. Cansado já da glória, e depois de se ter tornado útil ao comércio e à marinha, desarmou-se dos apetrechos bélicos, e ataviou-se elegantemente como "Barca de Banhos", e hoje mais do que nunca se acha bem conceituada, porque tem ido de melhoramento em melhoramento, a ponto da barca conter agora 31 banhos a estibordo e bombordo, sendo estes divididos em banhos diferentes, como por exemplo: 4 banhos de chuva, 2 reservados e 3 grandes, havendo a facilidade de reunir 3 banhos num só, quando se dá o caso da família ser numerosa. Como se todos estes atractivos não fossem bastantes, tem mais 2 magníficos banhos gerais com o comprimento de 102 pés ingleses, e a conveniência de servir um dos banhos de escola de natação, descobrindo-se metade, e tornando-se por tanto muito mais claro do que os outros. Davam-se, também  banhos quentes em tinas e igualmente mornos de chuva.

Colecção particular
O que sobretudo demonstrava claramente a excelência desta barca era o estar colocada na corrente da água e os banhos de proa serem "tão fortes e cristalinos como o das praias". A bordo, ainda havia um "bufete", onde os banhistas encontravam sempre um bom serviço e preços acessíveis.

Havia sempre à disposição dos frequentadores da "Deusa dos Mares" 3 botes no cais do Terreiro do Paço e 2 no Cais do Sodré. Em remate direi que a barca media da proa à popa 156 pés ingleses e 61 de boca, sendo por conseguinte a maior embarcação, ao seu tempo, surta no Tejo.


COMO ERAM AS BARCAS DE BANHOS?

Nada como o Eng.º Vieira da Silva, que frequentou estas barcas em 1875, na companhia de sua mãe, para nos descrever que:

"Tratavam-se de velhos cascos de barcos que se adaptavam a essa nova aplicação. Para esse efeito, ao longo de uma coxia longitudinal de circulação no convés, adaptava-se, a cada um dos costados, de proa à popa, uma estrutura de madeira semelhante a uma longa caixa, com tecto, dividida interiormente por tábuas transversais em celas ou compartimentos, com uma porta para o convés na parede anterior. Constituíam essas celas as barracas, para os banhistas se vestirem e despirem.

Os compartimentos alongavam-se para fora do convés do barco, e as suas paredes laterais e as posteriores, que desciam vedadas até ao nível da água, prolongavam-se para baixo deste nível com a forma de gaiolas, com três das suas paredes feitas de grades de sarrafos, e com o fundo de tábuas de soalho, que ficava cerca de 1,30m abaixo do nível normal da água nos compartimentos.

Deste modo, cada barraca podia considerar-se formada por dois compartimentos sobrepostos: um aéreo, com o pavimento ou estrado a nível do convés, no qual os banhistas se preparavam para o banho; outro aquático ou submerso, ou poço onde se tomava banho, limitado pelo gradeamento de sarrafos e pelo costado do barco.

Como os barcas estavam fundeadas, a água corrente do rio atravessavam os diversos compartimentos, pelos intervalos das grades de madeira o que proporcionava aos banhistas água corrente, com alguns encontros inesperados com peixes, alforrecas e uma ou outra imundície que vagueava pelo rio"...

Coorden. dos diversos textos e imagens: marr

sábado, 9 de março de 2013

Funerais Reais em 1908

FUNERAIS DE EL-REI D. CARLOS
 E DO 
PRÍNCIPE REAL D. LUÍS FILIPE

Na capela do Paço das Necessidades


Arcebispo de Évora
Conde de Jimenez Y Molina, Conde de S. Luiz
e o Marquês de Guell











Embaixador da Bulgária e oficiais alemães do Regimento de que
El-Rei era Coronel Honorário

Oficiais da embaixada espanhola, que acompanhavam o Príncipe
Fernando da Baviera, representante do Rei de Espanha


Um dos coches passando no Aterro
O cortejo saindo das Necessidades




O cortejo passando no Terreiro do Paço


O coche conduzindo o cadáver do Príncipe













O coche conduzindo o cadáver do Rei














Um dos coches chegando a São Vicente


A missão francesa
Conde de Turim e o Príncipe de
Hohenzollern, primo de El-Rei D. Carlos








O coche conduzindo o cadáver do Soberano, chegando a São Vicente
Ilustrações e legendas: marr